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"CRÔNICAS DE UM NATAL ATRASADO"

Lá pertinho do Pólo Norte, sob grossas calotas de gelo, uma correria danada pelas oficinas, pelos salões de despachos, pelos centros de controle das oficinas de Papai Noel.

A cada ano os anõezinhos têm que dar conta de mais e mais pedidos. Ainda bem que agora os computadores ajudam um bocado. Senão, muita criança ficaria sem seu brinquedinho... ou receberia outra coisa no lugar do que pediu.

Enquanto pacotes de todos os tamanhos e cores se avolumam perto das portas de saída, Papai Noel dá uma última conferida nas listas intermináveis. E parece que tudo está em ordem.

Satisfeito, o simpático velhinho resolve dar uma olhada no seu "uniforme" de viagem. A boa e velha roupa vermelha, bem acolchoadinha para resistir ao frio, está ali, como se fosse nova em folha. Coisas da magia do Natal. As botas também estão impecáveis. E o barrete, com as bordas macias, também. Mas... cadê as meias de lã? Ah! Sem elas, o frio pode entrar pelos pés e tornar a viagem pela noite de Natal bem desagradável.

Onde a Mamãe Noel deixou minhas meias?...

Ah... Nesta gaveta devem estar as... o que é isto? Que papelzinho é este? Ué. Um bilhete! Aqui, perdido no fundo da gaveta?! Está até amarelado. Deve fazer tempo que está aí... Tem data! Mais de dez anos... Assinada pelo... Felipe, de 8 anos. Pede uma bola de capotão!... Mora no Brasil, num bairro perto de São Paulo, chamado Vila Natal...

Meu Deus. Como é que este bilhete ficou perdido todo esse tempo?... Ah, já sei. Era aqui que eu guardava os pedidos que iam chegando, antes de usarmos os computadores. Vai... o Felipe ficou sem sua bola. E eu fiquei mal com uma criança...

!!!

Espere. O Felipe não é mais uma criança. Agora deve estar um rapagão de 18 anos.

Como será que ele encarou essa falha? Os seus amiguinhos, todos, devem ter sido atendidos, naquele Natal. Ele ficou sem a bola...

...

Preparem o trenó. Vou fazer uma viagem especial.

Eu sei que ainda não é Natal. Vai ser uma viagem rápida, só para levar um presente atrasado.

Volto em tempo para a grande entrega.

Coloquem somente esta bola de capotão, bem embrulhadinha, no trenó. E até logo...

...

Ops. A rua mencionada no bilhete não existe mais, ali embaixo. Agora, no lugar, passa uma grande avenida. Também, dez anos é um tempão. Mas como vou fazer para localizar o Felipe?

Ah. Ia esquecendo. Os computadores de bordo localizam qualquer criança pela fé e pela força contida nas letrinhas dos bilhetes que recebo. É só ligar o computador, buscar o programa localizador e... aqui está. O Felipe, que escreveu o pedido, até que não foi parar muito longe. Vou seguir a indicação e... já estou chegando onde ele está.

Um grande prédio, alto, cercado de grandes muros... e de... grades?!

O que é aquilo? Parece... um presídio!!! Só me faltava essa. O Felipe... está ali... preso?! Mas por quê? É um rapazinho? Como é que pode? O que foi que ele fez?

Mas a missão é entregar a bola de capotão. O que ele fez eu vou saber depois.

Quando ele escreveu o pedido, acreditava em mim, acreditava na magia do Natal e acreditava na bondade.

Não pode ter perdido tudo isso em pouco mais de dez anos... apesar da minha falha.

...

Senhor diretor: tem um velhinho aí fora, fantasiado de Papai Noel, querendo entrar para entregar um presente!

Recebemos algum comunicado sobre essa visita, sargento?

Negativo. Mas... se eu fosse o senhor... até que daria uma atençãozinha ao velhinho... senhor!

Ué. Nunca percebi interesse assim, de sua parte. Está ficando de coração mole, sargento? Pegou alguma coisa do espírito de Natal?!

Foi um... comentário, somente, senhor.

Está bem. Se o tal velhinho conseguiu tocar seu coração duro, quero conhecê-lo. Mande-o entrar. Mas... com todo o cuidado na revista, hein?

Já o fizemos, senhor. Está limpo. Só tem o presente, nas mãos.

Que presente?

Uma bola de capotão, senhor.

!!!

Mande-o entrar.



...Com que então o senhor quer entregar esta bola ao detento da cela 14, senhor...?

Papai Noel.

Está bem. Senhor Papai Noel.

É uma entrega atrasada, admito. Ele pediu esta bola quando tinha só oito anos. Mas o pedido se extraviou... E estou tentando corrigir a falha. Se me permitir.

Eu não imagino de que organização, companhia ou entidade o senhor saiu mas... é muita ousadia chegar aqui, sem documentos nem autorização e pedir para ver um preso, para entregar alguma coisa. Aí deve ter algum truque... e nesta época de festas, desconfiamos de qualquer coisa, entendeu? O que está por trás disso? Algum plano de fuga? Alguma rebelião?

Absolutamente. Somente o que eu falei, mesmo. Minha missão é só entregar presentes. Não poderia me envolver com qualquer outra coisa, senhor Celso.

Ah! Sabe meu nome, não é? Então deve saber, também, que sou super-rigoroso...e não caio em qualquer conversa. - Deixe-me ver esse presente, essa bola.

Se desse pra o senhor não desfazer a embalagem...

Como é que vou ver se há uma bola mesmo, sem nada dentro, sem rasgar o papel todo?

É. Eu sei como é. O senhor... sempre rasgou os papéis de presente meio... violentamente.

?

Bem. Pelo menos, quando era criança.

Do que o senhor está falando?

Ora. Dos seus presentes. Que eu trazia, muito tempo atrás. Aquele trenzinho, que eu entreguei quando o senhor tinha - deixe-me ver - uns sete anos, até ficou meio amassado de tanta força que fez para desfazer o pacote e os laços. No ano seguinte, foi a vez dos caminhõezinhos. Mas eles eram resistentes. Não estragaram...

Quem lhe contou isso?

Ninguém. São relatórios que recebo dos anõezinhos, depois de minha passagem. Assim podemos preparar melhor os brinquedos para resistirem às crianças... e às suas... características.

O senhor deve estar brincando comigo...

Eu não brincaria com uma coisa tão bonita... e tão séria... como essa de atender aos pedidos de uma criança.

Eu não... sou criança...

Mas foi... até que desistiu de acreditar em mim, lá pelos seus onze anos... e começou a falar diretamente com seu pai. O que foi corretíssimo. Natural.

Mas... meu pai não me atendeu. E o senhor sempre me atendia.

Quando a coisa vai para a negociação pai/filho, tudo passa a depender dessa relação, do entendimento.

Pois então custou para meu pai entender. Houve até momentos em que lamentei não acreditar mais no senhor...

Ops...

Estou falando como se eu acreditasse que o senhor é realmente o Papai Noel.

Mas não era nisso que o senhor queria acreditar, de novo?

Mas não agora, não fora do tempo.

Sempre é tempo para acreditarmos no espírito de Natal, na sua magia... e na força dos nossos pensamentos e desejos.

Eu estou aqui, justamente, por causa disso... E a propósito, como faço para encontrar o Felipe... e entregar esta bola pra ele?

Espere. Eu vou chamá-lo aqui... e... não repare estas lágrimas. Eu... estou meio resfriado (schiff)...

...

Papai Noel? Cê tá brincando, meu!...Qual é?

... Está certo que vim meio atrasado, mas... olha aqui. Sua bola de capotão. Espero que você não tenha ficado muito frustrado, triste comigo... Afinal, pediu quando tinha oito anos... e já se passaram mais dez...

Você é o Papai Noel, mesmo?

Sou.

Então, tem que ouvir umas verdades, o meu.

Sabe por que eu pedi a bola? Era para participar de um campeonato lá no bairro. Tinha até patrocinador. Que ia entrar com jogo de camisas, aulinhas pra depois dos jogos, e por aí vai. Quem levasse a bola tinha o comando do time. Como ninguém levou, não teve time nem campeonato... e saímos pra fazer outras coisas no lugar de jogar, no lugar do esporte. E foi daí que a barra começou a pesar. Conhecemos uns caras que mexiam com furtos, drogas e fomos nos envolvendo. Quando dei por mim, não dava mais pra escapar. Daí, fui pego, estou pagando pelas bobagens que aprontei, mas alguns dos meus amigos não estão nem aí, mais, para contar suas histórias. Se foram. Em brigas, confrontos, acertos de contas...

Ei, Papai Noel. Vai molhar toda a barba com essas lágrimas... E agora... depois de tanto tempo você me traz a bola dos meus sonhos? O que vou fazer com ela?...

Você eu não sei, Felipe, mas eu poderia sugerir um campeonato aqui, no pátio, agora. Poderia ser um campeonato de Natal. Uma inovação aqui no presídio. Com direito às famílias dos presos virem torcer... e comemorar.

O senhor faria isso, diretor?

Por que não? E até poderíamos convidar aqui o Papai Noel para dar o chute inicial...

Oh, oh, obrigado, senhor diretor, mas não seria possível. Tenho que voltar às minhas bases. Está quase na hora de começarem as entregas deste ano. E não poderia ficar para este campeonato lindo. Mas vou ficar torcendo para que tudo dê certo... e que o campeonato termine empatado. Assim, ninguém fica triste, oh, oh, oh...

Então combinado, Papai Noel. E daqui a algum tempo, quando eu sair daqui, volto a lhe escrever contando novidades...

Estou estudando bastante aqui, fiquei noivo, me caso assim que sair e quando tiver um filhinho, vou contar minha história pra ele. Não sei se ele vai acreditar em mim, mas sem dúvida vai acreditar em Papai Noel.

Feliz Natal, senhor diretor, feliz Natal, Felipe, feliz Natal a todos os que acreditam...

E até o ano que vem...

E o céu se encheu de luzes à passagem do trenó...



Mauricio de Souza

14 de dezembro de 2000


     



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