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A BOTIJA DE OURO

Joel Rufino dos Santos



Era uma vez uma escravinha que não tinha nome.

Quando ela foi comprada, esqueceram de perguntar o nome dela.

O senhor sempre chamava:

- Ei moleca, vem cá!

A escravinha vinha. Não precisava de nome, não.

Mas vai que os outros pretos não gostavam de chamar ninguém de moleca. Trataram de arranjar um nome pra ela. Toca a procurar.

- Vamos chamá-la de Noite – opinou vovó Belquisse. – Que ela é preta como a noite. Nunca vi mais preta.

Mas não gostaram. A escravinha era magrinha demais para um nome tão grande.

E palpitaram que palpitaram: Aluá, Gerebô, Quituxe, Giga, Azuzê, Anuanda...Nenhum prestava. E a escravinha continuou sem nome.

- Ei, moleca, vem cá! – berrava o senhor. Ela vinha.

- Ei, garota, me tira este bicho de pé! – Ela tirava.

- Ei, negrinha, me traz um copo de refresco! – Ela trazia.

- Ei, guria, me abana pra passar esse calor! – Ela abanava.

Vai que um dia a escravinha sem nome pegou a comer parede. O senhor não tava olhando, ela comia um pouquinho. Mas não engordava, não. Mais parede que comia, mas fininha que ficava.

O senhor perdeu a paciência. Chamou o feitor.

- Me põe esta moleca no quarto escuro. E se, depois disso, continuar a comer parede... Aí, me sapeca um bolo nas duas mãos. Que eu quero ver.

O quarto escuro tava assim de aranha. Mas a escravinha conseguiu dormir. Sonhou que estava com fome e raaque, raaque, raaque, pegou a raspar a parede pra comer.

Raspou tanto que encontrou uma coisa dura. Suas unhas começaram a doer.

Sabe o que era?

A BOTIJA DE OURO! Que todo mundo procurava desde o Descobrimento do Brasil.

A botija alumiava tanto que no quarto parecia dia.

O feitor que ia passando ficou desconfiado:

- Que luz é essa aí, diabo de moleca?

- É um montão de vagalume – respondeu ela, pra disfarçar.

A escravinha sem nome, aí, tirou a gandola e embrulhou a botija. Bem embrulhada, que não aparecia nem um tiquinho.

Quando acabou o castigo, o feitor abriu o quarto e perguntou:

- Que embrulho é esse aí, diabo de negrinha?

- É aquele montão de vagalume – respondeu – que eu vou no brejo enterrar.

Mas o feitor não acreditou, não.

Quando a negrinha chegou na senzala, abriu a gandola. Vó Belquisse ensinou como se botava a botija pra funcionar:

- É só esfregar as costas do dedo maior-que-todos.

Dito e feito. Caiu que caiu dinheiro.

- E pra parar, vó Belquisse? Que vem aí o feitor.

- É só estalar os cinco dedos.

O feitor, porém, viu aquele clarão:

- Que luz é essa, diabo de pretos?

- É um montão de vagalumes.

- Qual mané vagalume, qual nada! – ele não acreditou. – Só pode ser a botija de ouro.

Correu contar o senhor:

- Olha que a escravinha sem nome achou a BOTIJA ENCANTADA DO TEMPO DE CARLOS MAGNO.

O senhor chamou a escravinha:

- Cadê a botija de ouro?

- Tem botinha nenhuma, nhonhô. Tem é um montão de vagalume.

Cadê o montão de vagalume?

Tá no brejo enterrado.

O senhor, aí, mandou escavoucar. Cava que cava, só voava grilo. Ficou com raiva. E mandou botar a escravinha no tronco:

- Vamos ver se esta botija aparece ou não aparece.

O feitor, de maldade, passou mel na escravinha. Que era pra de noite as FORMIGAS DE BARRIGA LISTRADA a comerem.

Quando foi escurecendo, escurecendo... que a estrela papaceia mostrou a cara, o feitor chegou com artes.

- Então, diabo de moleca! Onde está a botija de ouro?

- Tem botija nenhuma. O que tem é uma porção de vagalume.

- Então espera de noite! – Ele respondeu.

Já se ouvia o rajaque-jaque das barrigas listradas. A escravinha com medo, mas não entregava a botija de ouro, não.

Quando as formigas estavam bem perto, rajaque-jaque, saiu do brejo um montão de pisca-acende. Ficou tudo tão iluminado que nenhuma formiga chegou perto.

De manhãzinha, o feitor foi ver se a escrava estava roída. Cadê que não tava!

- Faz mal, não – jurou ele. – Espera a noite que vem.

Na outra noite, quando as formigas chegaram, os vagalumes vieram novamente salvar a escravinha. Acende-apaga, acende-apaga em volta do tronco.

549 noites foi igual.

- Espera a noite que vem – jurava o feitor.

A noite que vem acontecia nada.

A escravinha estava tão magra que o tronco nem a prendia mais. Os buracos folgados, folgados. Ela fugiu, foi procurar o senhor.

- Aqui está a botija de ouro – falou. – Não quero mais.

Explicou como funcionava. O senhor toca a fazer dinheiro.

Tanto dinheiro fez que a casa começou a afundar. Quando já tava atulhada de moedas ele gritou pra senzala:

- Ei, negros do diabo! Como é que se para este negócio?

Cadê que negro algum escutou. A senzala tinha ficado lá em cima.

- Ei, negros do diabo! Ei, negros do diabo!

A fazenda lá embaixo, os pretos cá em cima, sem dono. Todo mundo que passava queria saber que buraco tão fundo era aquele.

Os escravos, que não eram mais, contavam. E o feitor?

Ninguém sabe se está lá embaixo com seu dono. Como ele vivia dizendo à escravinha: “Espera a noite que vem”, ela acabou ganhando esse nome: A Noite Que Vem.


     



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